Músculo 'economiza energia' no ciclismo e desafia noções clássicas de desempenho
Estudo internacional revela que, mesmo em alta intensidade, eficiência do movimento depende mais de estruturas elásticas do que da contração muscular — e não difere entre atletas e amadores

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Em meio à busca incessante por ganhos marginais no esporte de alto rendimento, um novo estudo publicado neste sábado (2), na revista Scientific Reports, lança luz sobre um mecanismo pouco visível, porém decisivo, no desempenho de ciclistas: a forma como músculos e tendões compartilham o esforço durante o pedal. A pesquisa, liderada por Josh Walker, da Leeds Beckett University, sugere que a eficiência do movimento não está diretamente ligada ao quanto o músculo trabalha — mas sim ao quanto ele consegue “economizar energia”.
O trabalho reuniu cientistas de instituições europeias, como a University of Jyväskylä e a University of Gloucestershire, para investigar o comportamento neuromecânico do músculo gastrocnêmio medial — parte da panturrilha — durante o ciclismo em diferentes intensidades. A conclusão desafia pressupostos tradicionais: mesmo quando o esforço aumenta significativamente, o músculo em si mantém um padrão relativamente estável de funcionamento.
“Esperávamos encontrar diferenças claras entre atletas treinados e indivíduos não treinados, mas isso não ocorreu”, afirma Walker. “O que observamos foi uma adaptação do sistema como um todo, especialmente nas estruturas elásticas, como os tendões.”
O papel invisível dos tendões
O estudo avaliou 29 participantes — incluindo ciclistas, triatletas e indivíduos fisicamente ativos — submetidos a quatro níveis de intensidade (150, 200, 250 e 300 watts). Sensores de movimento, eletromiografia e ultrassom foram usados para medir, em tempo real, o comportamento muscular e tendíneo.
Os resultados indicam que, à medida que a intensidade do exercício aumenta, o tornozelo se move para uma posição mais flexionada, ampliando o alongamento do conjunto músculo-tendão. No entanto, essa mudança não se traduz em maior esforço das fibras musculares. Em vez disso, a energia é absorvida e devolvida predominantemente pelos elementos elásticos — especialmente o tendão de Aquiles.
Na prática, isso significa que o corpo utiliza um mecanismo semelhante a uma mola para otimizar o gasto energético. “É como se o músculo funcionasse como uma estrutura rígida, enquanto o tendão armazena e libera energia”, explica Neil J. Cronin, coautor do estudo.
Eficiência acima da força
A descoberta reforça um conceito crescente na fisiologia do exercício: desempenho não depende apenas de força ou resistência, mas da eficiência mecânica do sistema locomotor. Ao minimizar o encurtamento e alongamento das fibras musculares — processos metabolicamente custosos — o corpo reduz o consumo de energia.
Esse padrão já havia sido observado em atividades como caminhada e salto, mas sua confirmação no ciclismo — um movimento altamente controlado e repetitivo — amplia sua relevância. “Estamos vendo um princípio biomecânico universal: o corpo humano tende a poupar energia sempre que possível”, diz Athanassios Bissas.
Atletas vs. amadores: nenhuma diferença
Um dos achados mais surpreendentes do estudo é a ausência de diferenças significativas entre atletas treinados e não treinados no comportamento neuromecânico durante o ciclismo. Mesmo com anos de treinamento e adaptações fisiológicas, ciclistas e triatletas não apresentaram vantagem nesse aspecto específico.
A única distinção relevante foi morfológica: triatletas apresentaram tendões de Aquiles mais espessos — possivelmente resultado do impacto adicional da corrida em seus treinos.

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“Isso sugere que certas adaptações estruturais não necessariamente se traduzem em mudanças funcionais durante o ciclismo”, observa Barney Wainwright.
Implicações para o esporte e a saúde
Os resultados têm implicações diretas para o treinamento esportivo. Em vez de focar exclusivamente no fortalecimento muscular, programas de preparação podem se beneficiar ao considerar a eficiência do sistema músculo-tendão como um todo.
Além disso, a pesquisa contribui para a prevenção de lesões. Tendões mais eficientes e bem adaptados podem reduzir o estresse sobre os músculos e articulações, especialmente em atividades de longa duração.
No contexto mais amplo, o estudo dialoga com uma linha histórica de investigação iniciada no século XX, quando cientistas como A. V. Hill demonstraram que o custo energético do movimento está diretamente ligado à dinâmica das fibras musculares. Hoje, com tecnologias avançadas de imagem e análise, é possível observar esses processos em tempo real e com precisão inédita.
Apesar dos avanços, os autores reconhecem limitações. O número relativamente pequeno de participantes e o uso de intensidades absolutas — em vez de relativas à capacidade individual — podem ter influenciado os resultados.
“É possível que diferenças entre grupos apareçam quando consideramos o esforço relativo de cada indivíduo”, afirma Walker. “Esse será um passo importante para pesquisas futuras.”
Uma nova forma de pensar o movimento
Ao revelar que o corpo humano privilegia estratégias de economia energética mesmo sob esforço elevado, o estudo redefine a compreensão do desempenho no ciclismo. Mais do que força bruta ou técnica refinada, o segredo pode estar na harmonia entre músculos e tendões — uma engrenagem biológica que opera silenciosamente a cada pedalada.
Em um cenário esportivo cada vez mais orientado por dados, entender esses mecanismos pode representar a diferença entre o pódio e o pelotão.
Referência
Walker, J., Cronin, NJ, Wainwright, B. et al. Neuromecânica do gastrocnêmio medial durante o ciclismo em diferentes intensidades de exercício. Sci Rep (2026). https://doi.org/10.1038/s41598-026-51412-2